UM CEGO COM GRANDE VISÃO (1ª PARTE)



Escrever acerca do nosso próprio Pai, não é tarefa fácil. Mesmo que haja um vento de forte inspiração que eleve a habitual mediocridade, não será nunca um ato banal redigir um texto sobre o homem que nos marcou a existência.
Perante os factos que fazem hoje parte do passado, concluímos que não terá sido por um simples e mero acaso que a vida daquele que viria a ser meu Pai, cedo atingida pelo drama da cegueira, viesse demonstrar, nos parcos anos neste mundo percorridos, um manancial positivo de distintos atributos que, sem dúvida, deram alma a um personagem diferenciado na sua enriquecedora caminhada terrena. 

Não será exagerado dizer que se tratou de um homem de grande visão, um homem para além dos limites que a cegueira limitava.
Herdeiros que somos, junto a outros, tão só dos genes do seu próprio ADN, sentimo-nos deveras honrados com a singularidade do seu carácter e das muitas qualidades com que Deus lhe pautou o destino.

JOÃO PAULA, mais conhecido por JOÃO CEGO de Bujões, foi meu Pai.

Escrevo PAI com letra grande, como grande ele foi como PAI!
Ao lado desse Pai tão distinto e diferente, sentimos a força, a presença incomparável dessa grande e inesquecível mulher, que foi sua esposa e nossa Mãe - ALBERTA VENTURA.                
Nesse regresso aos sentimentos  do passado, aquilo que na essência nos diferencia é a circunstância de sermos fruto da sublime história de amor, de ALBERTA e de JOÃO, gerada em duas aldeias que sempre se olharam como amigas: Bujões e Covelinhas.

Mas atendamos antes aos caprichos do destino, ditados por Aquele que desde os confins do Universo tudo comanda, numa azáfama impressionante em que ora pinta de azul a marcha das nossas vidas, ora introduz o fogo da paixão, ora escurece de negro os momentos de luto ou de tristeza, ora nos dececiona ou alegra nas derrotas ou vitórias do nosso destino. E no fim desse caminho, curto ou longo, pautado sempre a um ritmo que é igual para todos, dia a dia, hora a hora, minutos e segundos, numa caprichosa marcha, em cujo final cada um  de nós deixará sempre um legado, ou seja, a memória do seu passado de vida, seja ela despida e vazia ou mostruário de inúmeras recordações.
É por isso que me atrevo nesta página a enfatizar parte dessa memória, construída pelo único bujoense conhecido que nunca viu o reflexo dos seus próprios olhos, nem os da mãe e pai ou da mulher amada, nem dos seus filhos e familiares, ou sequer a face rosada ou envelhecida das pessoas, as paredes brancas e negras das humildes casas da aldeia, ou a imponência das mansões dos antigos fidalgos, as curvas ondulantes e a rudeza agreste dos fraguedos dos caminhos, o verde fresco dos campos, a amplitude das serras e vales que marcavam a paisagem,
a beleza das flores e árvores que se contrapunham ao azul celeste do céu, as águas cristalinas das fontes, ribeiros e rios, ou as ondas alterosas do mar.
Muito menos JOÃO viu os pássaros que por todo o lado chilreavam ou voavam, as estrelas que iluminavam  a noite, o brilho do Sol, as fases da Lua, nem as imagens dos Santos a quem orava ou cantava em pura expressão de fé, ensinando outros a fazê-lo, sob o olhar orgulhoso do padroeiro Santo Amaro.
Mas não pensem, não imaginem sequer que a escuridão o impedia de apreciar e admirar a beleza, ou estranhar a fealdade. Ele via tanto ou mais de qualquer um de nós! Podem crer! E com a sensibilidade dos seus dedos, alicerces do pensamento, imaginação e tacto, ele excedeu o que estava ao normal alcance de qualquer ser humano.
De facto, a sua visão era tão profunda e poderosa que penetrava de claridade as nuvens mais escuras, apenas exibindo, isso sim, as marcas físicas de uma cruel e inesperada cegueira, compensada em vigor e excesso pela riqueza de uma inteligência ímpar que lhe preencheram o coração e a alma, projetando sobre todos os seus familiares, amigos e conterrâneos, até aldeias e vilas distantes, o som maravilhoso da sua maestria musical, da sua indelével marca cultural, figura sublime, eterno baluarte das gentes que sempre apreciaram a sua delicadeza de trato, a sua postura educada. Um Homem, um artista,  um personagem único, distinto e diferenciado na história e vida da nossa aldeia.
Sob a sua fronte, dois olhos fechados que se abriam à imaginação perene projetando um raio de luz que tudo iluminava, levando ao seu mundo de aparente escuridão o esplendor abrangente da visão, propagando-a até aos confins do horizonte!
JOÃO PAULA, um Pai de grande visão, um Homem brilhante como o Sol! Deus deu-lhe o poder de iluminar as nossas vidas e a sua voz afetuosa, plena de carinho, ainda hoje nos aconchega o coração. Por isso, e muito mais, não o esqueceremos nunca!


 João Paula - Sob os óculos escuros a visão de um grande PAI.





O INÍCIO DA HISTÓRIA
Em 6 de Maio de 1880, António Baptista Paula, filho de João Baptista Paula e de Lucrécia Moreira, casou em Bujões com Luiza Alves Cardeal, filha de António Alves Cardeal e de Dona Ana Bernardina Botelho Barbosa.
Trabalhador rural, analfabeto, António Baptista Paula ligou a sua vida a uma das filhas daquele que casara com a herdeira de uma parte da Capela de Nossa Senhora da Conceição, dos Barbosas, situada no Largo do Seixo. Será por isso que  ganhou jus ao apelido de Cardeal?
De facto, o pai de Luiza Alves Cardeal foi duramente atingido pelas consequências dos problemas deixados pelo pai de sua mulher, Inácio Botelho da Silva Barbosa e Sousa,  que era avô de Luiza Alves Cardeal.
O certo é que a vida  não se apresentou fácil para António Paula e Luiza Cardeal,  tal como para a maioria das gentes da aldeia, mas nem por isso deixaram de a fortalecer com os filhos que foram nascendo:
Maria da Conceição, nascida em 2/5/1881
Natividade, nascida em 2/4/1883
Manuel, nascido em 9/1/1886
Francisca, nascida em 7/4/1888
Engrácia, nascida em 4/2/1890

UM PEQUENO INTERREGNO
A falta de saúde de Maria da Conceição e Francisca, avolumaram as dificuldades da vida do casal que tomou a decisão de rumar ao Brasil, refúgio de esperança para milhares de trabalhadores rurais humildes que aportavam ao país que lhes garantia trabalho nas culturas do café, cana de açúcar e fazendas de gado. Além do mais, os pais de Luiza Alves Cardeal haviam falecido  decorridos pouco mais de 6 meses após o casamento com António Baptista Paula. Do núcleo familiar mais próximo, restavam apenas os pais de António, João Baptista Paula e sua mulher Lucrécia Moreira.
A partida para o Brasil ocorreu em meados do ano de 1892 e viajaram na companhia da filha Natividade, então com 9 anos, a única que manifestava robustez física para acompanhar os pais.
João e Lucrécia, avós carinhosos, ficaram a seu cargo com os restantes filhos do casal, todos de tenra idade.

O REGRESSO
Em 7/10/1893, mal passara um ano desde a sua ida para o Rio de Janeiro- Brasil, chega a notícia da morte de Lucrécia Moreira, de 72 anos, nascida em Bujões em 21/3/1822, filha de José Moreira e Maria Rodrigues e  que ia cuidando a muito custo das netas e do neto Manuel, filhos de António e de Luiza.
Estes, e sua filha Natividade, logo regressaram a Bujões, mais pobres do que haviam partido, mas não era de todo aconselhável que os filhos continuassem  sob os cuidados do avô, já idoso, e que ainda trabalhava no campo para ajudar no sustento da família, coisa infelizmente tão comum naquela pobre aldeia.
E depressa esqueceram aquela fugaz aventura pelas terras longínquas do Brasil que então absorvia milhões de emigrantes dos países mais pobres do sul da Europa. Essa semente, mesmo sem ter dado frutos, viria anos mais tarde a atingir alguns dos filhos do casal, como foi o caso do Manuel e  do José.

UM RAIO DE LUZ
Estava-se em plena primavera no mês de Maio do ano de 1895. Sol esplendoroso, cerejeiras carregadas a vergar, exibindo pernadas e pernadas de frutos tão apetitosos, como se fossem brincos de pérolas pintadas de vermelho penduradas nos ramos  e brilhando nas árvores espalhadas pelas encostas da pequena aldeia e mais  terras em redor.

Não eram estas, mas outras semelhantes, lindas e carregadas.
Era assim e ainda assim continua...

No meio de campos salpicados a ouro pelas espigas do trigo e centeio,  manchas e manchas de pinheiros, oliveiras e  videiras verdejantes, envergonhadas ante a imponência dos soitos de castanheiros que cercavam a povoação desde a Cortinha, o Carvalho, o Bodinhal, Poça do Pinheiro, Vale Tojal, o Sapateiro, Costa da Várzea, até além, perto da Azenha, na  Raposa, por cima dos rebordos da água cristalina que descia da Fonte, recém inaugurada, até ao bordejo das matas que iam dar aos Negrilhos e Regada. Um panorama avassalador!
De repente, eram sete horas da tarde, solta-se uma gritaria que só não assustou a aldeia porque já era esperada.  Em casa de Luiza Alves Cardeal e António Baptista Paula, nascia mais um rapaz! Era o dia 22 de Maio de 1895, uma quarta feira! Já lá vão mais de 120 anos!
Criança bonita, logo despertou um sorriso de satisfação no avô João que, então com 67 anos, viúvo, assistia ao desenrolar do nascimento sentado num degrau das escadas, à entrada de casa, sendo saudado por quem se aproximava curioso, mas sempre com o respeito devido ao patriarca da família, ele que viera de Guiães, ali bem cerca, por detrás do alto das Seixas.

- Este vai ter o meu nome!... futurou...

E assim foi, conforme consta do registo de baptismo realizado em 6 de Junho de 1895, uma 5ª feira, sendo padrinhos João Baptista Paula (o avô) e Francisca Alves Cardeal, solteira, com 43 anos, irmã da mãe do novo membro da família que tomou o nome de JOÃO, sabendo-se lá a razão porque não ficou com o apelido de Cardeal, mas tão somente com o apelido do pai, havendo alguns registos em que acrescentaram o apelido  Baptista, que não surtiu.


DE REPENTE, UM DRAMA E LOGO OUTRO
Caída acidentalmente para o meio de um monte de rodilhas, a chupeta de pano imbuída de açúcar foi retirada e metida de pronto na boca chorosa do João. De imediato a mãe alertou a filha Maria da Conceição para que tivesse cuidado não fora o João apanhar a febre que há dias ela teimosamente mantinha, agravada com as manchas que lhe cobriam o corpo, pré anunciando a doença que, como uma peste, atingia todas as crianças da aldeia.
De facto, naquele ano de 1895, dos 13 nascimentos de meninos e meninas registados em Bujões, 10 acabariam por falecer. Uma percentagem de 80%!
Não era a peste, mas sim a varíola ou bexigas como então se popularizou. Não escolhia idades, muito embora as crianças fossem de longe as mais vulneráveis.
Maria da Conceição, jovem então com 14 anos,  acabaria mesmo por falecer em 3/11/1895, no meio de grande consternação porque não só era a primeira filha do casal António Paula e Luiza Alves Cardeal, mas também porque era o principal apoio dos pais nas labutas de casa e já trabalhava no campo. 
Um dia, seguido de outros dias, de tristeza e de lágrimas pungentes!
João, por sua vez, ainda com poucos meses de idade, atravessou os primeiros tempos de Inverno, este mais chuvoso e frio do que o normal e mais escuro, ainda, pelos gritos de dor que a cada passo ecoavam pela aldeia por mais uma criança atingida pela doença fatal e que partia para o Além. Morte atrás de morte. Anjo atrás de Anjo!
E em princípios de Fevereiro de 1896, após cerca de 15 dias de incubação, também João foi atingido pela varíola e o seu corpo de menino, febril e cheio de dores, ficou coberto de manchas avermelhadas e bolhas purulentas que, após um curto período, secavam e formavam crostas popularmente chamadas de "bexigas de canudo" ou loucas.



A varíola, doença terrível e com alta mortalidade
naqueles anos do fim do século dezanove.

E foi assim que, dramaticamente, João perdeu a sua visão para sempre, ao levar as mãozinhas contaminadas aos olhos, perante o desespero inaudito provocado por uma exasperante comichão que lhe atingia o corpo, nada lhe podendo valer, porque nem sequer ainda falava. Pela sua tenra idade de 9 meses, apenas restava que alguém lhe mitigasse o sofrimento enquanto chorava compulsivamente, abanando as mãos como que a implorar socorro!
Quadro triste, quadro de miséria avassalador, em que não havia remédios, nem médicos, nem cura, nem nada que interferisse no caminho da morte! Até a própria família receava a doença que era entendida como destino mortal, porque seria essa, imagine-se, a vontade de Deus! Só a sorte apoiada na mão do Criador, assim se acreditava, acabou por deixar vivo quem se presumia que iria ser atingido pelo destino cruel que chegou para tantos outros.
Com efeito, nesse ano de 1896, Bujões perdeu 20 pessoas, 18 das quais crianças de pouca idade, em comparação com apenas oito(8) nascimentos registados. Dias houve em que faleceu mais do que uma criança, como no mês de Setembro em que deixaram a aldeia nove Anjos a caminho do Céu.
E no mundo inteiro entre 1896 e 1980 a varíola matou ou deformou mais de 300 milhões de pessoas!
Nota: Na nossa freguesia, em 1896 e 1897 faleceram as seguintes crianças, não havendo registo daquelas que ficaram com deformações resultantes da epidemia de varíola:
Bujões :  18+2 =20 , somando mais 10 em 1895!
Abaças:  10+34 = 44
Fontelo:  14+2  = 16
Vilarinho:  5+2  = 7

Deixemos a tristeza e voltemos à vida...





UMA JUVENTUDE  DIFERENTE
João Paula ultrapassou o seu encontro com a morte, mas ficou cego. Para seus pais, se já não bastasse esse drama, logo outro aconteceu quando perderam pela mesma doença sua filha Francisca, nascida em 7/4/1888 e que se finou em 26/9/1896. Ou seja, no espaço de menos de um ano perderam a filha Maria da Conceição (3/11/1895), surgiu a cegueira de João (Fevereiro de 1896) e a morte de Francisca (26/9/1896). Resta falar da Engrácia, cuja data de falecimento  se desconhece, tudo indicando que partiu nessa época e pela mesma causa.
Mas ao jovem casal-António Paula e Luiza Cardeal- só lhes restou demonstrar que depois da tempestade a esperança se renova e novo sorriso prenuncia a bonança.
De facto, em 17/2/1898 nascia mais uma filha - Maria Augusta Paula- e  em 26 de Março de 1900 nasceu o último filho - José Paula. Era assim … Enquanto uns partiam, outros vieram ocupar o seu lugar...
Restaram 5 filhos dos oito gerados, o suficiente para que João fosse crescendo no meio dos irmãos, brincando com eles, mas sempre com aquela penumbra negra nos olhos que o limitava perante os outros.
Um dia, com 6 anos, lá para as matas do Vale Nogueira, apanhava lenha e pinhas em conjunto com alguns irmãos e outras crianças da aldeia quando surgiu o dono,  gritando que ia prendê-los e entregá-los ao cabo de ordens de Abaças, por andarem a roubar...
Fugindo, como todos, primeiro agarrado à mão de outro e, logo em seguida, sozinho, ficou no meio da mata, ora batendo contra um pinheiro ora contra outro, cheio de medo, mas esgueirando-se à sorte, por entre os tojos, até que se escondeu no meio de umas giestas.
O dono da mata, acompanhado do filho Artur, sabendo ambos que o João era invisual, fizeram de conta que o dono já se afastara. O Artur, então com 17 anos, deu-lhe a mão, dizendo em tom amistoso:
- João, já podes sair daí, e ir pelo caminho, que o meu pai não te viu. Os teus irmãos estão ali à frente à tua espera! Vai ter com eles...

Afinal, era o próprio filho do Sr. José Dionísio Ribeiro de Araújo, dono da mata, que o ajudou a sair daquela situação, ele que  viria a ser um dos seus grandes amigos e que muitos bujoenses conheceram ou ouviram falar- Artur Ribeiro de Araújo, o homem que morava na casa grande do Seixo.
Entretanto, chegou a idade da ida para a escola, mas como em Bujões não havia tal luxo, nem a maioria das crianças sequer  frequentavam as que existiam em Abaças, Poiares ou Vila Seca, para onde tinham de caminhar a pé, João não tinha qualquer hipótese de o fazer, tanto mais que era cego e, nessas circunstâncias, limitava-se tão só a brincar ou a assistir sentado às brincadeiras dos outros. 
Mas em alguns jogos, como jogar à malha, ele atirava ao pino, medindo primeiro a distância com os pés e arremessava a pedra na direção adequada, não raras vezes acertando. Mas quando era para medir quem estava mais perto do pino, os outros tentavam enganá-lo, o que não era para admirar.
Porém, nesses anos diferentes, a falta de visão de João não impediu que ele desenvolvesse outros sentidos e se posicionasse na vida como um jovem promissor, educado e protegido pelos pais que o compensavam em amor e ternura.


NOVA DESGRAÇA
Fazia precisamente dez anos que João perdera a visão, quando inesperadamente  ficou órfão do pai, tendo este apenas 48 anos. Decorria o dia 16 de Fevereiro de 1906. António Baptista Paula, homem de pequena estatura mas grande nos seus princípios, deixou este mundo e os filhos e mulher que tanto amava.
O coração não resistiu às inúmeras amarguras sofridas e António Baptista Paula partiu deste mundo a caminho do novo mundo, não o Brasil, mas aquele do eterno descanso, onde passado algum tempo recebeu a companhia do seu próprio pai, João Baptista Paula, falecido em 21/8/1908, tendo ambos deixado um vazio muito grande no coração de João. Este, com treze anos, já não podia poder contar com o amor do pai e do avô, mas restavam-lhe os irmãos e a mãe, que se esforçava para que nada faltasse aos filhos, sobretudo ao João.  
Com efeito, os dois PAULA ao deixarem este mundo transportaram no seu sangue a marca indelével da pastora beirã, Paula Monteira, de Nave Redonda, que acompanhou João Monteiro, pastor, para os montes e colinas que rodeavam Guiães, onde faleceu com 37 anos, deixando seu nome próprio como o apelido que ainda hoje nos assinala a existência. Um caso raro, ilógico, mas verdadeiro.



A PARTIDA PARA O BRASIL
Aproximava-se o Natal de 1909 quando Manuel Paula, então com 23 anos, decidiu partir para Santos- Brasil, com a firme convicção de que só assim poderia ajudar a família que vivia com tantas dificuldades.
E lá viajou para o fim do mundo, deixando para trás a mãe e irmãos unidos na manifestação de tristeza quando da sua despedida, expressa em gritos lancinantes de dor, como então era costume em Bujões. As pessoas iam embora e julgava-se que era para sempre.

-Adeus meu querido filho que nunca mais te volto a ver- gritava a pobre mãe!

Meu tio Manuel partiu em conjunto com o Sr. Bento Alves Moreira, então com 22 anos, e com o Joaquim Botelho, este com 13 anos.
Em Outubro de 1913, partiu para a companhia do irmão o meu tio José Paula, então com 13 anos de idade. Foi na companhia de Clotilde das Dores, então com 23 anos e da sua filha Maria Cândida, bem como do tio João Comba, então com 29 anos. Estes foram para o Rio de Janeiro para se juntarem ao Caetano Comba, marido da Clotilde das Dores.
A tia Clotilde das Dores Botelho acabaria por voltar na companhia das suas três filhas - Maria Cândida-Felisbela e Filomena, após a morte inesperada do marido, Caetano Comba.
Manuel Paula e José Paula, partiram de Bujões com muita tristeza por deixarem o irmão João agora reduzido à companhia das duas irmãs - Natividade e Maria Augusta.
Louve-se a Deus pelo exemplo fraterno destes dois irmãos que nunca tendo ganho o suficiente para regressarem, a verdade é que ajudaram sempre a família até falecerem muitos e muitos anos depois. Se o Céu foi feito para receber os bons e justos, de certo Manuel e José ali estarão porque são um caso raro de bondade e amor pela família.
Visitei meu tio José duas vezes em Santos na companhia de sua esposa Ermelinda, e posso garantir que será difícil encontrar exemplo mais puro e digno do que o sentimento fraternal que emanava dos seus corações. E como viviam em condições tão humildes!
Durante anos chegavam as suas cartas do Brasil, dirigidas ao irmão João e à irmã Maria, subscritas pelo irmão Manuel com as expressões que ainda hoje recordo:


- Meus queridos irmãos, esperamos que estejais bem de saúde, que nós estamos bem graças a Deus. Enviamos um dinheirinho pelo banco, para dividirem entre vocês. Foi o que conseguimos arranjar eu e o José, que não pode ajudar muito porque tem um filho e ganha pouco.
1.500 são para a Maria, marido e filhos e outro tanto para o João, mulher e filhos.
Pagai a quem deveis e comprai alguma prendinha para os meninos.
Que Deus os abençoe!

Podemos concluir dizendo simplesmente que já não há irmãos como estes foram. E naquela cidade de Santos, no Macuco, encontraram alguns bujoenses que para ali aportaram  e que contaram sempre com o apoio e até ajuda financeira, se bem que modesta, destes dois inesquecíveis membros da família PAULA. Manuel e José, tios inesquecíveis!
 




PASSAPORTES DE MANUEL PAULA e JOSÉ PAULA. Partidas para sempre!





        


AS DUAS IRMÃS DE JOÃO

As irmãs de meu Pai, Natividade Paula e Maria Augusta Paula, foram muito influentes e intervenientes na forma como acompanharam a vida diferente de seu irmão.


 Foto de 1932 -Natividade Paula e a irmã Maria Augusta Paula, esta
com os dois filhos- António Augusto Amaral e Domingos Amaral


Em primeiro lugar, como quase todas as mulheres da aldeia, não sabiam ler nem escrever. Natividade que ainda viajou até ao Brasil,  regressou  à aldeia e nunca viria a casar. A irmã Maria Paula acabaria por casar aos 23 anos com Manuel Amaral, natural de Poiares, e que era carreiro (condutor de carro de bois).
Pelos difíceis caminhos que circundavam as vinhas e aldeias, esses homens percursores do progresso, símbolos de uma vida de extrema dureza, antes do aparecimento das camionetas de carga, conduziam os carros carregados com pipas de vinho, de umas quintas para outras, ou para o cais de embarque da Régua, de onde seguiam por barco rabelo, rio Douro abaixo, ou  por comboio a caminho do Porto. E rodas chiando e animais e carreiros sofrendo, lá iam subindo e baixando montes e picos, em caminhos tortuosos, numa azáfama que envolvia todo o tipo de trabalhos ligados à lavoura. Heróis que contribuíram para a beleza única de um Douro sublimado!






Era assim, por muitas quintas e caminhos  até as pipas chegarem ao Porto.




E SURGE A MÚSICA

Não é preciso mais para haver festa e alegria !!!

Saber verdadeiramente como a música chegou ao encontro com João, não é já possível determinar.
Alguns dizem que do Brasil lhe trouxeram uma rabeca (violino), outros que começou a tocar viola e mesmo piano, havendo até quem diga que tinha uma propensão excelente como afinador deste instrumento de teclas. Não andaremos, porém, longe da verdade se admitirmos que algum dos muitos antigos nobres e lavradores que por ele tinham estima, como era o caso do Sr. Agostinho de Lacerda, que lhe doou a casa do Quinteiro, ou a Dona Carlota, da Quinta da Prelada, um deles lhe tivessem ofertado o violino, que aprendeu a tocar de ouvido e com o qual passaria a abrilhantar bailes, serenatas, casamentos e batizados e soirées em casa de ricos, bem como em eventos religiosos. 
Na viola era um mestre na arte de acompanhar ou mesmo a solo, e se não fora já um caso ímpar que o levou ao acordéon já na parte final da vida, ainda o grande destaque da sua voz, da inteligência ímpar na forma como aprendia e ensinava músicas sacras,  em latim, dirigindo um brilhante CORO de homens e mulheres de Bujões, cuja fama chegou longe e cujas vozes alegravam a pequenina Capela de Santo Amaro, mas também se fizeram ouvir com brilhantismo noutros lugares de oração. E, em todas essas manifestações, lá estava o tio João Cego, como também estava sempre nos arraiais, nas comédias de Guiães, em casa e serões dos seus amigos, onde qualquer expressão de arte e cultura o alegravam ao ponto de os seus olhos fechados, imaginariamente se abriam de par em par, num transbordar de imaginação que era pura melodia para os seus ouvidos atentos e não raras vezes críticos. 

Por ele, se tal já então fora possível, seria servido sempre um lauto banquete de música do mais fino recorte, chamando ao palco e dando vida aos que, naquele tempo eram expoentes máximos das diversas formas de arte que verdadeiramente o apaixonavam, como a literatura,  a música erudita, popular e sacra, e que lhe percorriam o sangue, as veias e o coração, tendo no seu próprio violino o companheiro de esplendor que só não atingiu outros caminhos porque o mundo era então, e Bujões em particular, um local escondido, esquecido e longe de tudo e de todos.
De resto, tal como ele, são inúmeros os homens e mulheres, todos atingidos pela cegueira, que superaram todos os limites dessa terrível deficiência, mas que saíram vencedores absolutos de todas as barreiras que se lhe depararam no caminho, e que não impediram a sua projeção por esse mundo além, ficando como marcas da humanidade! Em homenagem ao seu companheiro cego, já com lugar no Paraíso musical que lhe foi reservado no mundo do Além, começaremos a segunda parte desta página, a concluir daqui por uns meses, com o registo de alguns vídeos, com exemplos magníficos de personagens cegos possuidores de uma mente brilhante e exemplos de grandeza na ultrapassagem e superação das dificuldades, dons esses transmitidos por Deus. 


25 de Dezembro 2016 ( fim da 1ª parte)






3 comentários:

  1. Parabéns Ze!
    Está aqui um trabalho espectacular e sério na maior parte das descrições que relatas e outras que não as conhecia. O nosso pai também é meu herói porque ainda vivi com ele e o acompanhei durante 16 anos e adiantaria para constar como testemunho que ele não nos via mas sentia-nos pelo andar ou quem sabe pelo olfacto(?) Continua a outra parte, é imperativo. obrigado, Sérgio

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  2. Encontrei este blogue casualmente, mas acho muito interessante que se destaquem vultos humildes de uma pequena aldeia transmontana, a maioria delas despovoadas. Deixo aqui os meus parabéns pela forma como são elogiados todos os personagens que deram aso à história desta aldeia como é o caso deste texto sobre o pai do autor do blogue, aqui lembrado com ternura. Um exemplo a seguir. JOSE SANTOS - Prof. Historia - Porto

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  3. Muitos parabéns! Felizes os PAIS que são recordados com tanto carinho.
    A homenagem, poeticamente prestada, transporta-nos às paisagens da nossa meninice com toda a sua variedade e encanto, onde nos aparece a figura inesquecível do Sr. JOÃO, sempre amável e sorridente...
    Um abraço.
    A. Comba

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