O CIPRESTE DE BUJÕES

 

                        


Quando há séculos atrás o CIPRESTE da Cortinha começou a erguer-se em direcção ao céu, ninguém imaginaria quantos anos iriam decorrer até terminar o seu percurso, que acabaria por ser longo e culminaria no dia 11 de Março de 2024,  quando uma motoserra eléctrica elevada num equipamento hidraúlico montado num camião, iniciaria o seu corte  por fases, em virtude de quase todos os ramos já se encontrarem secos e o tronco inclinado, ao ponto de se presumir que, mais tempo, menos tempo, cairia de velho, desamparado!

Assim, deste modo, por imperativo legal e como medida de bom senso,  para uns inesperada, para outros sem surpresa, acabou desta forma os seus dias a árvore que se tornara não só um ícone da natureza que circunda e embeleza Bujões, como também um símbolo especial para muitas gerações de bujoenses.

No fundo, tratava-se de uma referência, uma árvore que marcava a paisagem, em local simbólico da aldeia de Bujões! 

De facto, percorreu os tempos como se fora uma árvore de todos, apesar de integrar uma propriedade privada - a Cortinha- de quem existem registos de ter pertencido a um conhecido membro da família Barbosa, fundador da Capela de Nossa Senhora da Conceição, então situada onde hoje se encontra o  Largo do Seixo. 

A Cortinha foi vendida em 1841 por 1350 reis pelos herdeiros de Ignácio Botelho da Silva Barbosa e Sousa (António Alves Cardeal e sua mulher Ana Bernardina Botelho Barbosa e Sousa, Cândida do Nascimento Botelho Barbosa, Maria do Carmo Botelho Barbosa, João Botelho da Silva Barbosa e Sousa de Lucena, Vicente Botelho da Silva Barbosa) ao Dr.  Antão Fernandes de Carvalho, de Vila Seca de Poiares, Juiz da Relação do Porto,  casado com Ana Emília da Costa Carvalho, pais de Dona Zélia Maria d`Assumpção Silva Carvalho, nascida em 3/2/1879  e falecida em 19/3/1962.

Não estranha, portanto, que a Cortinha tenha sido conhecida durante anos como a Cortinha da Dona Zélia, que a herdou dos pais.

Finalmente, a Cortinha foi adquirida pelo  Sr. José Correia Botelho, voltando assim através dessa compra à posse plena desse conceituado bujoense, com raízes genealógicas interligadas a um descendente (filho)  do aludido Ignácio Barbosa, cujo nome incluia, igualmente, o apelido Botelho.

Entretanto, como prova da simbiose existente entre os bujoenses e o CIPRESTE,   este teve até direito a nome de Rua e era olhado com simpatia por todos, atravessando diversas gerações de conterrâneos que nasceram naqueles tempos bem difíceis do passado e que o viram nascer, crescer, entroncar e agora findar. 

Muitos rapazes aspiravam e desejavam subi-lo, a ele abraçados, tentando vencer as dificuldades que se deparavam. Alguns dizem que o conseguiram, e certamente o fizeram, mas ainda felizmente percorre os caminhos deste mundo o  José Mateus, que a todas as árvores subia de forma admirável como várias vezes o fez com o Cipreste. E essa imagem de um rapazote subir como uma simplicidade incrível  árvore tão alta e rugosa ficou para sempre na memória e nas recordações de quem assistiu a esses momentos, como eu e muitos da minha geração! Por isso mesmo o Mateus também não será esquecido fazendo parte desse mundo mágico da nossa juventude na década de 5o! 

Mas o CIPRESTE foi também durante anos e anos a árvore presente que assistia à passagem dos bujoenses falecidos, e que ali mesmo, ao pé de si, se despediam da terra onde nasceram e viveram, sob os choros pungentes de tristeza dos familiares e população, seguindo depois o caixão pelas Barrocas a caminho do cemitério de Abaças carregado pelos entes queridos e amigos. E quantos Anjos ele viu também partir, sobretudo nas épocas de pandemia que atingiram as crianças e os mais novos?

Atendendo a que era costume o culto das Alminhas, é provável que o CIPRESTE tenha sido plantado junto a esse simples lugar de culto, já desaparecido, no caminho que depois bifurcava à esquerda para Abaças, por  decisão e fé dos donos da Capela de Nossa Senhora da Conceição e  também da Cortinha, há pouco mais de 300 anos.  

Por outro lado, como se fora um vigilante em serviço, o CIPRESTE apercebia-se de tudo o que ocorria na aldeia, porque bem cerca estava a Fonte onde as mulheres lavavam a roupa ou se envolviam em fortes discussões, ou davam a conhecer as últimas notícias sobre os que estavam longe, sobretudo nesse Brasil tão distante, ou até os mexericos cor de rosa, como as novas paixões que envolviam rapazes e raparigas.  

Ele observava as  pessoas que iam assistir às missas na Capela de Santo Amaro, a meio do povo, da Senhora da Conceição, no Largo do Seixo, ou mais recentemente no Senhor do Calvário. E como ele notava que cada vez são menos a percorrer esse caminho da fé. 

Também ouve tempos em que ficava curioso com os que subiam a Costa das Lages ou os que a desciam, sem esquecer o primeiro carro do Sr. Araújo que tantas vezes era empurrado pela rapaziada. 

Por outro lado, olhava lá do alto para a Escola, quer a do Carril, quer a da Eira, via tudo o que se passava no largo do Seixo e nas diversas tabernas que Bujões já teve, e alguns barulhos aos domingos, mas sobretudo admirava todos os que de manhã cedo partiam a caminho do campo para trabalhar, porque aquela gente simples sempre foi e certamente será gente dedicada ao amanho das terras. 

Era um vigilante sempre calado que não dizia mal de ninguém,  e tanto se incomodava que estivesse frio como se estivesse calor.  Acolhia nos seus ramos, meio fechados, os inúmeros pardais e todo o género de passarada, que cantavam como se formassem uma banda que Bujões nunca teve! 

E esse chilrear estonteante e eufórico das aves que pulavam de galho em galho, beijando os bicos umas das outras, como se vivessem momentos de ternura e paixão, mais alegria era espalhada, mais ninhos se entrelaçavam nos ramos!

E não podemos deixar de lembrar que apesar da sua altura, resistiu a tudo, chuva, neve, trovões e tempestades e até as faíscas o respeitavam, porque nunca o atingiram  como sucedeu com tantas outras árvores por aqueles campos e matas que rodeiam Bujões.

Hoje, ao lado do velho tronco do CIPRESTE, um novo cipreste plantado com o apoio de vários bujoenses, começa o seu caminho que todos desejamos seja longo. 

Para que isso fosse possível, a Sra. Doutora  Juiza Clotilde Correia Botelho e seu marido Sr. Doutor Chaves Ferreira autorizaram que num cantinho do seu prédio da Cortinha se "fizesse o que se quisesse"!

Desse modo, nasceu a ideia de se dotar esse espaço para se plantar um novo cipreste,  arranjando-se a área envolvente de forma a que a jovem árvore  possa usufruir de um lugar mais moderno que o anterior, com mais conforto e idêntica visibilidade, esperando-se que demonstre merecer o carinho  dispensado pelos bujoenses, não secando prematuramente e subindo até encontrar as primeiras nuvens!

Será por tudo isso mais do que justo enaltecer aquele gesto nobre e desprendido de quem quis compreender o sentir do povo de Bujões, que não esquecerá tal atitude merecedora de sentida gratidão. MUITO OBRIGADO! 

Que Deus dê saúde a quem permitiu que renascesse no mesmo local,  o símbolo  marcante pela sua singeleza e simplicidade de uma das aldeias mais antigas de Portugal.

Bujões e os bujoenses não esquecem!

Por fim, que fique  bem claro que, na verdade, nunca mais haverá um Cipreste como aquele que terminou os seus dias em 11 de Março passado, deixando ainda a parte baixa do seu tronco, ao lado do novo cipreste, acompanhado de uma enorme pedra na qual estão expostas duas placas  alusivas, pedra essa que representa e exibe, perante os vindouros,  a dureza da vida dos nossos antepassados, o seu esforço e amor ao trabalho, o suor tantas vezes vertido, a fome e o cansaço, as doenças e as dificuldades que venceram, sempre em pé firme, como uma rocha apontada ao Céu e aos que já partiram, contributos esses que permitiram que a aldeia que recebeu no ano de 1191 doze povoadores, autorizados por foral do rei Dom Sancho I, ainda hoje, mais de 833 anos depois, caminhe ufana e orgulhosa, lembrando que só é grande quem não esquece as suas origens humildes!

13 de Junho de 2024

E quanto ao Cipreste vejamos algumas fotos com licença dos autores bujoenses que as tornaram públicas no Facebook, blogues ou por outros meios, bem como uma síntese das obras realizadas . Palavras para quê ?

Foto abaixo: Há quase 100 anos atrás quando das obras de remodelação da casa do Sr. Araújo. O Cipreste já bem alto, lá no fundo, na Cortinha!

 


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