UM BUJOENSE NA PRIMEIRA GUERRA MUNDIAL




Manuel Maria dos Santos Farrôco, mais conhecido por tio Manuel Soqueiro



BEM-VINDO!
Aos 17 de Janeiro de 1893, num dia frio de inverno, nasceu em Bujões, às 10 horas da noite, MANUEL, filho de Manuel dos Santos Farrôco, natural de Fontelo, e de Maria do Carmo,natural de Bujões, neto paterno de António dos Santos Estrela e de Joaquina da Silva Marta, neto materno de António dos Santos e de Maria Barbosa. Sua mãe, Maria do Carmo, teve a assistência no parto prestada por uma das brilhantes "enfermeiras diplomadas" de serviço em Bujões naquela época. Como eram tantas, nem nos lembramos do seu nome! Tudo indica, porém, que tenha sido a avó materna, a tia Maria Barbosa, quem deitou mãos à obra, não faltando então muitas outras "ajudantes de enfermagem" sempre prontas a colaborar.
O pai do bebé, sentado à lareira, adocicou a garganta com um trago de vinho tratado e um sorriso de satisfação, após os gritos dolorosos da mãe, logo seguidos pelo forte choro do menino acabado de nascer!

-Este tem pulmões de soqueiro! Vai-se chamar Manuel, como eu!, rematou o pai, que já vivera antes idêntica experiência com o primeiro filho, o António!

E assim veio ao Mundo, naquela terra pequena e pobre, em que, verdadeiramente, não havia assistência nenhuma, a não ser no Hospital da Divina Providência, em Vila Real, distante quinze quilómetros, medidos a pé ou montado num burro, pois não havia estrada, quanto mais ambulância! Nascia-se em casa. As "parteiras", sempre existiram em Bujões e algumas das mais recentes ainda hoje são justamente lembradas, como a tia Maria da Fonte e a tia Micas. Não eram formadas em puericultura, nem sequer sabiam ler, mas tinham "calo", mãos de Deus e proteção divina! E se não houvesse tesoura, havia sempre uma navalha para cortar o cordão umbilical! Foi assim durante séculos!
Olhando para esses tempos, temos que louvar todas essas mães maravilhosas, como a Dona Maria do Carmo e muitas outras, como a minha, que nem pensavam nos perigos de trazer ao mundo vários filhos naquelas condições, mas mesmo assim foram poucos os que se finaram logo à nascença e isso só abona a qualidade daquelas que manejavam habilmente as mãos agarradas ao ventre da mãe e a aliviavam pegando com esmero e cuidado no corpinho viscoso e ensanguentado de mais um ser humano! E todas elas se mostravam pujantes no amor e na ajuda a mais um nascimento, fonte e luz da vida! 
Obrigado a todas elas e saudemos o Manuel Maria dos Santos Farrôco! Sim, Farrôco, que irá ficar mais tarde esquecido, sendo os filhos todos batizados como Santos, por parte do pai!
Embora batizado apenas com o nome de Manuel, na vida militar seria utilizado o nome de Manuel Maria, sendo este último proveniente da mãe (Maria do Carmo) ou da madrinha (Maria Leopoldina). Porém, no registo dos filhos o nome mais utilizado foi o de Manuel Maria dos Santos, com exceção do primeiro em que foi utilizado o nome de Manuel dos Santos Barbosa. No casamento usou o nome de Manuel dos Santos Farrôco. Nada disto é de estranhar porque essas diferenças eram muito habituais naquela época.
Portanto, bem-vindo a este mundo Manuel Maria dos Santos Farrôco!



         Certidão de batismo de Manuel, filho de Manuel dos Santos 
          Farrôco e de Maria do Carmo.

          


OS FARRÔCO-Um pouco de história
Quando o pai de Manuel Maria, que era natural de Fontelo, casou no dia 19 de Junho de 1889, foi identificado no registo de casamento com o nome de Manuel dos Santos Farrôco Júnior, filho de António dos Santos Estrela e de Joaquina da Silva Marta, ambos de Fontelo. Como se pode observar nos dados do registo paroquial abaixo apresentado, até assinou aquele nome com assinatura completa. Um luxo naquela época!
Esta particularidade de acrescentar Júnior ao nome, julga-se que terá o ver com o facto de existir em Fontelo um primo com o mesmo nome -Manuel dos Santos Farrôco-, nascido em 26/2/1862 e que era filho de Francisco dos Santos Farrôco, irmão de António dos Santos Estrela que também usava o nome de António dos Santos Farrôco. Deve ter sido esse o motivo para essa diferenciação, de resto pouco habitual naqueles tempos.
Entretanto, a esposa de Manuel dos Santos Farrôco Júnior aparece no registo com o nome de Maria da Conceição, em vez de Maria do Carmo, mas tudo indica tratar-se de um lapso.

De resto, como Maria do Carmo dos Santos Barbosa, este o seu nome completo, era natural de Bujões, o marido deixou Fontelo e instalou-se na terra da mulher, onde continuou a exercer o ofício de soqueiro, numa casa ali bem juntinha à já inexistente Capela de Santo Amaro, no começo da Rua do Rabão. Mais tarde, porém, foi utilizada a parte de baixo de uma outra casa, que ficava no fim da rua, bifurcação para o Carril, casa essa que viria a ser do tio Sebastião Soqueiro, seu filho. 

Quanto ao apelido Farrôco foi difícil encontrar a sua origem, mas vejamos como ele surgiu, pois tivemos de recuar muito no tempo para obter uma conclusão segura.

6/8/1789 - Casamento em Guiães de Domingos Pereira de Carvalho, natural dessa aldeia, com Maria José Fernandes,  natural de Fontelo.

7/2/1815 - Celebração em Guiães do segundo casamento de Domingos Pereira da Eira, viúvo que ficou de Maria José Fernandes Farrôca, com Angélica Margarida Borges.
Portanto, todos os descendentes masculinos de Maria José Fernandes Farrôca, vão assimilar o apelido Farrôco, apelido este que já existia noutras localidades, havendo até, por volta de 1700, em Vila Real, um notário que tinha aquele apelido.

Seja como for, a árvore genealógica da família Farrôco a que nos estamos referindo, tem a sua origem em Fontelo, não se sabendo se tal apelido era consequência de alguma alcunha, pois que em relação ao marido que sobreviveu a Maria José Fernandes Farrôca - ela faleceu cedo- aparece com o nome de Domingos Pereira Carvalho e, mais tarde, com o nome de Domingos Pereira da Eira, quando casou pela 2ª vez, presumindo-se que moraria em alguma eira (largo) e terá adquirido o "apelido" dessa forma. 

Tendo por base a pesquisa aos registos que existem, abaixo deixaremos parte dos membros dessa árvore dos Farrôco para se compreender como terá surgido o apelido e como este se espalhou por outros lados, incluindo o Brasil, para onde vários emigraram, sendo certo que isso não sucedeu com os descendentes do tio Manuel Soqueiro, que não usaram nunca tal apelido, preferindo ser Santos, talvez porque eram todos vizinhos dos outros santos que viviam na Capela, mesmo ao lado da sua casa.

                                                                                                                I        

Domingos Pereira, ou Domingos Pereira da Eira, ou Domingos da Eira e Maria José Fernandes ou Maria José Fernandes Farrôca tiveram vários filhos do casamento realizado em 6/8/1789, entre os quais Maria Teresa Fernandes, ou Maria Teresa Fernandes Farrôca, ou Maria Teresa Farrôca.

                                                                            II
Esta casou em 19/2/1816 com António Gonçalves dos Santos Estrela, e tiveram vários filhos, entre os quais os seguintes:
10/12/1816 - Margarida
25/11/1818 - Joana
04/11/1820 - Ana Benedita
24/05/1823 - Delfina
01/10/1825 - Maria
15/03/1828 - ANTÓNIO
22/04/1833 - Joana
Nota: Vários destes filhos já apresentam a indicação de serem netos maternos de Maria Farrôca.

                                                                          III
ANTÓNIO DOS SANTOS ou ANTÓNIO DOS SANTOS ESTRELA, ou ANTÓNIO DOS SANTOS FARRÔCO nascido em 15/3/1828, casou em 9/9/1860 com JOAQUINA ROSA DA SILVA MARTA, nascida em 13/11/1834 e tiveram, entre outros, os seguintes filhos:
22/08/1861 - Maria
05/11/1863 - Joana
30/11/1865 - Anastácio 
02/10/1867 - Anastácio
26/09/1869 - MANUEL 
10/11/1871 - Anastácio 
04/03/1873 - António * 
Nota: Os três filhos com o nome de Anastácio faleceram em crianças.
 * Já indica no registo ser filho de António dos Santos Farrôco.                              

 
                                                                                IV                                   
MANUEL DOS SANTOS FARRÔCO ou MANUEL DOS SANTOS FARRÔCO JÚNIOR, nascido em Fontelo em 26/09/1869, casou em 19/06/1889 com MARIA DO CARMO ou MARIA DO CARMO DOS SANTOS BARBOSA, nascida em Bujões em 02/04/1866, filha de Maria Barbosa e de António dos Santos e tiveram pelo menos os seguintes filhos:
01/09/1890 - António (a)
17/01/1893 - MANUEL 
08/06/1895 - José ( faleceu em criança)
09/07/1897 - José Maria (b) 
06/05/1900 - Maria das Dores (c)
23/05/1904 - Acácio (faleceu no Brasil)
05/10/1907 - Sebastião (d)
a) Casou em 16/02/1914 com Ana Santos Araújo.
(b) Casou com Ermelinda Rosa dos Santos Varandas, de Guiães. 
(c) Casou em 3/7/1924 com Álvaro Timpeira
(d) Casou em 26/10/1935 com Maria da Graça Messias.


           Registo de casamento de Manuel dos Santos Farrôco Júnior e Maria do Carmo               
Nota: Em vez de Maria do Carmo, por lapso colocaram Maria da Conceição. As testemunhas foram José Dionísio Ribeiro de Araújo - pai do Sr. Araújo - e António Lopes Messias. O noivo sabia assinar e fê-lo com a assinatura completa.




OS PRIMEIROS ANOS DE VIDA
A vida em Bujões era bem difícil para todos, mas como o pai do Manuel Maria tinha a profissão de soqueiro, isso mesmo consta da certidão de casamento, acreditamos que Manuel tenha tido uma infância menos problemática do que aqueles cujos pais viviam do trabalho do campo, mas mesmo assim tudo era escasso.

Entretanto, como não havia ainda escola em Bujões, por isso mesmo Manuel Maria não teve oportunidade de aprender a ler nem escrever, mas isso não impediu que viesse a revelar-se uma pessoa inteligente e bem formada. Um homem de bem, em jovem e adulto, sobre isso não restam quaisquer dúvidas. De resto, quando do cumprimento do serviço militar, em que consta da caderneta como sendo analfabeto, aliás como cerca de 70% dos portugueses de então, ele aprendeu a assinar o seu nome.

O pai, como já referimos, apesar de ter nascido em Fontelo, passou a residir em Bujões depois de casar. Existe memória de que era um conceituado mestre de artesanato, dedicado ao fabrico de socos, trabalho manual que implicava a utilização de madeira proveniente de uma árvore chamada amieiro, árvore essa que crescia nas margens dos rios e ribeiros, onde era cortada em pequenos troncos (paus de amieiro) e em seguida transportada das mais diversas formas (à cabeça, às costas, por homens ou mulheres e em animais, como burros ou cavalos e mesmo em carroças de bois).




Amieiros na beira do rio. Do frio das águas para o quentinho dos pés!


Será seguramente essa a razão porque tais mestres eram conhecidos e tratados por soqueiros, nome que foi estendido a toda a família e ainda hoje o mesmo passa de geração em geração, porque se trata de um nome de profissão e de trabalho, logo portador de dignidade e de orgulho!
Manuel Soqueiro, (Manuel Maria dos Santos Farroco) foi crescendo e aprendeu essa arte, sendo também ele um exímio mestre no fabrico de socos novos ou na adaptação de sapatos e botas já usadas, colocando-lhe "solas novas de pau de amieiro", demonstrando ter uma maestria superior à do seu próprio pai.
Eram eles, pai e filho, e depois outros irmãos, filhos e familiares que contribuíram com a sua arte para o conforto de muita gente de Bujões e das aldeias vizinhas, tão dura era a labuta diária nos campos e tão forte era o molde de madeira grossa que servia de sola aos socos, ou chancas, em contacto direto com os pés calejados. E até diziam, por graça, que quanto mais deformados eram os pés, mais o tio Manuel Soqueiro se esmerava nos ajustes na madeira talhada a preceito, para que os calos não doessem. E o irmão Zé Maria que morava em Guiães, onde casou, também ali tinha local para exercer a profissão e aí se juntavam os irmãos, quando era necessário. Ora em Bujões, ora em Guiães, onde tinham locais de trabalho, eles tinham clientes em todo o lado.
Me recordo, que nos meus tempos de menino, pedi insistentemente à minha mãe para que uns sapatos todos cabotados, já meios velhinhos e rotos, sem sola, fossem aproveitados para uns desses socos que nos aqueciam os pés e que, com as tachas que lhe eram pregadas por debaixo, e até de lado, batiam nas pedras das ruas fazendo um ruído como se fosse um sapateado, dando-nos ares de importância, a nós, que até dava jeito andar descalço para jogarmos à bola de trapos. Verdade que os socos não davam jeito para jogar futebol, mas por vezes serviam para uns bons pontapés no rabo ou umas chineladas ligeiras, ou mesmo umas boas coças das mães, de chinelo tacheado, que nos deixavam as nádegas a fumegar! No fundo, e esta é a verdade, tudo era compensado quando se deixava de andar com os pés todos feridos e esmurrados pelo meio das pedras e fragas e chegávamos ao Seixo calçados como gente! Vivam os socos e os mestres soqueiros! 


O mestre talhando a madeira com a enxó para ajustar ao sapato ou bota


Pregando as tachas. Falta colocar por baixo.




Quem me dera ter umas assim..



Até os pés das mulheres ficavam mais bonitos...






VENTOS DE GUERRA - A VIDA MILITAR

Com 20 anos, decorria o dia 3 de Julho de 1913, Manuel Maria foi recrutado e assentou praça como soldado, integrando o contingente do ano de 1913 do Distrito de Vila Real.
Foi incorporado com o nº 169 na 10ª Companhia do Regimento de Infantaria 13, de Vila Real, em 13 de Maio de 1914, data em que já então era patente que a Europa estava a caminhar para mais um conflito armado, bastando para tal que no meio dos ventos que sopravam favoráveis à guerra surgisse um qualquer acontecimento explosivo que viesse a ser fator determinante e faísca para que a mesma se despoletasse.





Quartel de Infantaria 13-Vila Real


E esse acontecimento surgiu precisamente em 28 de Junho de 1914, data em que foi assassinado em Sarajevo, atual capital da Bósnia e Herzegovina, à época província da Áustria-Hungria, o arquiduque Franz Ferdinand Karl Ludwig Joseph Maria von Österreich, príncipe herdeiro do Império Austro-Húngaro juntamente com sua esposa, a duquesa Sofie Marie de Hohenberg.
Por coincidência, tal assassinato surgiu na altura em que o soldado Manuel Maria dos Santos Farrôco estava em fase de instrução militar, tendo a guerra rebentado poucos dias antes de ele ter ficado pronto de formação em 28 de Agosto de 1914, como atirador especial. Ainda regressou a Bujões, após 108 dias de serviço empenhado prestado naquele regimento transmontano. E devido aos seus méritos foi-lhe atribuída como prémio na especialidade de tiro a espingarda em uso no exército no ano de 1914. A sua caderneta militar indica ter aptidão para ciclista, especialidade que, mais tarde, viria a ser integrada em batalhões da arma de cavalaria.



O atentado que foi o detonador da primeira guerra mundial.

 A princesa Sofie Marie e o príncipe  Franz Ferdinand , assassinados em Sarajevo




Horrível essa guerra iniciada em 1 de Agosto de 1914 e só terminada em finais de 1918, deixando um rasto de aproximadamente 9 milhões de pessoas mortas e de cerca de 30 milhões de feridos (entre civis e militares).
Os combates terrestres entre os beligerantes, decorreram em França, na Bélgica, Alemanha, Rússia, Itália, etc.,  ao longo de quilómetros e quilómetros de trincheiras escavadas naquelas terras regadas pelo sangue de milhões de mortos e feridos, em que os combatentes viviam como ratos, meses e meses seguidos, no Inverno e Verão, num suplício que demonstra a brutalidade do ser humano quando recorre à guerra como meio de resolver conflitos.
Sobretudo em França e Bélgica, os exércitos compostos por centenas de milhares de combatentes estavam frente a frente, separados por uma pequena faixa, chamada terra de ninguém, e os bombardeamentos com gás mostarda, armas pesadas, lança-chamas, etc. provocaram milhares e milhares de mortos e feridos.



 Era assim a vida nas trincheiras! Um horror!




Mortos nas trincheiras. O inferno na terra!



PORTUGAL NA GUERRA
Ainda hoje se considera polémica e talvez desnecessária a entrada de Portugal na primeira grande guerra. Contudo, em 30 de Janeiro de 1917 zarparam do Tejo três vapores britânicos levando a bordo a 1.ª Brigada do CEP, Corpo Expedicionário Português, comandada pelo general Gomes da Costa. Estes navios chegaram ao porto de Brest, em França, três dias depois, a 2 de Fevereiro, aí desembarcando as primeiras tropas portuguesas. Em 8 de Fevereiro, de comboio, chegaram à região da Flandres francesa, na povoação de Aire-sur-La Lys, onde as tropas efetuavam alguns treinos em trincheiras e aprendiam a lidar com essa dolorosa realidade de uma guerra em que os gases tóxicos eram inimigos mortais, sendo necessário aprender a usar as máscaras. Em 23 de Fevereiro, partiu para França um segundo contingente de tropas. Após um período curto de treino para habituação às táticas de guerra em trincheiras, formação essa dada pelas tropas inglesas, as primeiras tropas portuguesas ficaram entrincheiradas a partir de 4 de Abril e, nesse mesmo dia, António Gonçalves Curado foi o primeiro soldado português a perder a vida.



A CAMINHO DA FLANDRES
Depois de alguns meses de licença, após ter cumprido a recruta militar e tendo regressado ao trabalho em Bujões, Manuel Maria foi mobilizado em 1 de Outubro de 1916, passando a integrar a 1ª Companhia do Regimento de Infantaria 13 que viria a fazer parte do 2º Batalhão e da 5ª Brigada do CEP.
Em Abril de 1917 aquela Companhia desfilou em Vila Real, antes de soldados e oficiais tomarem o comboio até à Régua, e daqui para Lisboa, conforme fotos que se seguem: 




A  1ª Companhia do RI nº 13 desfilando à entrada da  ponte de Vila Real com banda e fanfarra a caminho da estação e da guerra. No meio de tantos soldados marchava também o bujoense Manuel Maria dos Santos Farrôco.


Familiares despedindo-se na Estação da Régua, antes de o comboio e os militares seguirem para Lisboa

EMBARQUE PARA FRANÇA
Depois da chegada a Lisboa, os militares do Batalhão de Infantaria 13 juntaram-se aos restantes camaradas que formaram a 5ª Brigada da 2ª Divisão do CEP, e que era constituída pelo Batalhão de Infantaria 4, de Faro, Batalhão de Infantaria 10, de Bragança, e Batalhão de Infantaria 17, de Beja, partindo para o porto de Brest em 22 de Abril de 1917. Pouco tempo depois foram ocupar posições numa faixa de cerca de 12 quilómetros na zona delimitada pelo rio La Lys.  


Desfile a caminho do barco, no Cais de Alcântara, antes da partida para França.


PARTIDA para Brest.


Chegada a Brest-Aguardando  o desembarque


Desembarque em BREST-FRANÇA-

MANUEL MARIA DOS SANTOS FARROCO, soldado nº 544, e com a placa de identidade do C.E.P nº 56:842-A, foi o único bujoense que combateu na frente ocidental da 1ª guerra mundial e participou na Batalha de La Lys que decorreu entre os dias 9 e 29 de Abril de 1918 no vale da ribeira de La Lys, sector de Ypres, onde morreram, ficaram feridos ou prisioneiros milhares de portugueses.  

Preparando-se para as missões que iriam ser atribuídas ao Batalhão de Ciclistas.



Não é conhecida em pormenor a sua atuação individual, mas tudo leva a crer que durante os dias em que permaneceu na frente de combate, juntamente com outros milhares de soldados portugueses, cumpriu galhardamente o seu dever para com a nossa pátria, registando os seguintes internamentos ao que tudo leva a crer por efeito de gases tóxicos inalados quando dos bombardeamentos alemães:
Baixa à ambulância nº 5 em 15 de Outubro de 1917 - Teve alta dia 23.
Baixa ao Hospital de Sangue nº 2 em 18 de Janeiro de 1918 - Teve alta em 21. Baixa ao mesmo Hospital em 8 de Maio de 1918, situado em Saint Venant, onde também se encontrava o Quartel General das tropas portuguesas.

Vista actual da cidade de Saint Venant -França 

Em 24 de Maio de 1918, já depois de estancado o enorme buraco aberto em La Lys, na frente ocidental, pelo exército alemão, seguiu para o Depósito da Arma de Cavalaria (ele pertencia à unidade de ciclistas) por ter sido julgado incapaz para todo o serviço em 13 de Maio. O avanço alemão, os bombardeamentos e os efeitos dos gases, aliados à desmoralização geral, ditaram o fim do CEP- Corpo Expedicionário português.
Presente no Posto de Apoio a Doentes  em 26 de Maio, por força daquela incapacidade física, aguardou repatriamento saindo do local em 18 de Julho de 1918 e chegando a Lisboa, de barco, no dia 28 de Julho, vindo de Brest.
Em 22 de Outubro desse ano de 1918 foi-lhe dada baixa de serviço por aquele motivo, regressando a Bujões. 







Para além dos terríveis bombardeamentos sofridos, da vida nas trincheiras em que passavam fome chegando ao ponto de comerem ratos que existiam às centenas naqueles buracos que mais pareciam cemitérios de vivos, os soldados do CEP nunca foram rendidos por outros. De facto, não se alimentavam, não descansavam, nem dormiam, e passavam os dias encharcados  na lama e em pântanos sem condições algumas, sujeitos a todo o tipo de doenças, completamente abandonados ao seu destino. Cruelmente, no dia em que, finalmente, estavam a preparar-se para abandonar a frente de combate,  os alemães sabendo disso pela espionagem, aproveitaram para desferir um ataque em número impressionante de armas pesadas e homens, na proporção de dez para um e massacraram as tropas do 2º Batalhão, às quais pertencia o soldado Manuel Maria dos Santos Farrôco. 
Como o Regimento de Infantaria 13 estava de reserva  na noite do dia 9 de Abril, perante a total descoordenação provocada pelas hordas inimigas, muitos que o constituíam conseguiram escapar, refugiando-se na zona de La Couture e, em seguida, uns quilómetros mais atrás, junto ao quartel General do CEP , em Saint Venant, enquanto o exército alemão, 10 vezes superior, só dias depois acabaria por ser barrado no seu avanço pela intervenção de tropas inglesas.
O General Gomes da Costa, comandante da 2ª Divisão do CEP relatou para a revista "A Ilustração Portuguesa" , edição de 22 de Julho de 1918, como decorreu a batalha de La Lys : 















Treino para uso das máscaras de gás


Enterrados na lama e na água...


Em combate nas trincheiras protegidas por arame farpado 


Um grupo de ciclistas a caminho da frente e outro em sentido contrário, no meio das ruínas...



Um posto de saúde, à espera de doentes ou feridos em combate

Prisioneiros portugueses da batalha de La  Lys

Pórtico do Cemitério português de Richebourg -França


Monumento no Cemitério português de Richebourg



Vista do interior do Cemitério com a bandeira nacional

LA COUTURE-FRANÇA - Monumento de homenagem às tropas portuguesas.

Em La Couture, desenrolou-se a resistência mais feroz dos soldados portugueses ao avanço alemão, horas após o inicio da batalha de La Lys. Poucos conseguiram escapar à morte ou detenção como prisioneiros, e um desses foi o valoroso soldado bujoense Manuel Maria dos Santos Farrôco.





DEPOIS DA GUERRA... O AMOR
Após regressar a Bujões, em finais de Outubro de 1918, poucos dias antes de terminar definitivamente a guerra, em 18 de Novembro desse ano, e ainda afectado pelos problemas de saúde resultantes da inalação de gases tóxicos, do frio e da fome, além do efeito psicológico da vivência com cenas de combate que eram uma autêntica selvajaria, com imensos mortos e estropiados, trauma que continuou a marcar-lhe a vida para sempre, MANUEL MARIA, apesar disso tudo, deitou mãos à obra e voltou ao trabalho, ora como soqueiro, ora em trabalhos agrícolas pontuais. E como jovem que era, a sua figura não passava despercebida. 
Porém, o seu olhar e sentimentos cruzaram-se com os da filha mais nova de Manuel Botelho e de Rita do Carmo, FRANCELINA BOTELHO, nascida a 11/8/1903, dez anos mais jovem do que ele e ainda menor.


 

Registo de batismo de FRANCELINA. Foram padrinhos o Dr. João Baptista Gonçalves Pavão e Dona Maria de Mattos.





Ela era uma moça alta e bonita, cheia de simpatia, inteligente, estando o pai interessado em que acabasse os estudos para se formar como professora - a primeira de Bujões.
Contudo, depois de ainda mal terem decorridos 6 meses sobre o 2º casamento da irmã Clotilde, facto que os Comba não aceitaram nada bem, logo a Francelina se perdeu de amores pelo Manuel, já maduro, com mais dez anos e acabado de chegar da guerra. Lá se foi o sonho dela e do pai de chegar a professora...





Manuel Botelho, pai de Francelina e de mais dez filhos.



 
Aliás, consta-se que Manuel Botelho, homem arguto e avisado, perante a evidente paixão da filha, terá exclamado: 
-Oh Rita, estes, sem dúvida, foram feitos um para o outro! Não vale a pena resistir, mulher, pois vai-nos acontecer o mesmo que aconteceu aos alemães - perder a guerra! Já bem chega o problema da Clotilde. Paciência. Que sejam felizes!



Mulher serena, afável, mesmo lá longe no Brasil, já no Outono da vida, nunca esqueceu o seu Manuel e sempre o admirou como um combatente invencível na luta pelos  filhos que tiveram, educando-os de forma a que todos eles se tornassem pessoas de carácter e orgulhosas dos pais que os trouxeram a este mundo. Humildes, sim, mas amigos como nenhuns outros.



De facto, vencidas todas as barreiras, a boda do casamento realizou-se em 8 de Maio de 1920, ainda mal se apagara o drama passado no Brasil com a irmã Clotilde, que regressara viúva e com três filhas de tenra idade, frutos do seu primeiro casamento com Caetano Comba e que acabara de casar novamente, em 13 de Dezembro de 1919, com Manuel Pires Correia, de Poiares.
O fotógrafo da cerimónia, como sempre atrasou-se, e por isso mesmo nem sabemos quem esteve presente, mas houve baile na sala e não faltou o cabrito assado, arroz do forno e batatas, tudo regado a bom vinho, mas ninguém caiu da varanda para a eira!
Os pais de Francelina, dado que esta tinha apenas 16 anos completos, autorizaram com a sua presença o casamento que teve quatro padrinhos, dois deles os mesmos do batizado da noiva.



                                                                                 


                           

Certidão de casamento assinada pelos noivos, pai da noiva e alguns padrinhos

O mais importante e significativo viria nos anos seguintes para demonstrar toda a grandeza da união entre Francelina e Manuel; os filhos que surgiram ano após ano, de que apenas ficaria muito cedo pelo caminho, o Sebastião.
E apesar do ventre de uma das mais queridas bujoenses de sempre, a tia Francelina, ter saído um numeroso grupo de filhos, como abaixo de verá, ela nunca esqueceu aquele seu pequenino, único que Deus lhe levou, e até mandou dizer o o seguinte:

- Nesta foto eu fiquei com um ar um pouco triste porque me lembrei que perdi um filho, o Sebastião, que era o mais bonito de todos. Agora estou ao pé dele e daqueles que Deus já mandou chamar, mas não tenho pressa que os restantes venham porque os que cá estão só querem que eu lhes faça aqueles caldos de cebola e de couve troncha que comiam em Bujões e nem me deixam descansar... e apesar de no Céu não haver frio, andam sempre a pedir ao pai para lhes fazer socos forrados a pele de diabo, que são a grande moda daqui... 





FRANCELINA BOTELHO, Mãe de 11 filhos, entre os quais o Anjo da família - o Sebastião



A PARTIDA DE UM ANJO!
Já pais de 5 filhos, Manuel e Francelina, decorria o dia 10 de Junho de 1931, quarta-feira, sentiram uma vez mais a alegria do nascimento do 6º filho, a quem deram o nome de SEBASTIÃO DOS SANTOS BOTELHO.
A tia Francelina, então com 28 anos, não só amamentava todos os seus filhos como ainda ajudava a amamentar os filhos da sua irmã Clotilde, sendo uma Mãe carinhosa e preocupada com todos os seus rebentos, o mais velho dos quais, o Artur, já ia ajudando naquilo que fosse possível. 
De forma inesperada, porém, o Sebastião, que era a paixão da sua irmã Rita, que nascera antes dele, e quando já ambos brincavam por toda a casa, partiu a caminho do Céu, assumindo o papel de Anjo protetor daquela família. Assim, no dia 13 de Setembro de 1933, 4ª feira, o Sebastião voou ao encontro de Deus, deixando toda a família e amigos tristes e pesarosos.
A vida continuou. O tio Manuel e a tia Francelina continuaram a alimentar os que nasceram e partiram para nova fornada, com mais outros cinco. E vejam, de seguida, a ordem porque vieram a este mundo!

26/06/1921 - ARTUR DOS SANTOS BOTELHO

10/03/1923 - JOAQUIM DOS SANTOS BOTELHO

15/09/1924 - LOURDES DOS SANTOS BOTELHO

15/03/1927 - JAIME DOS SANTOS BOTELHO

14/01/1929 - RITA DE JESUS DOS SANTOS

10/06/1931 - SEBASTIÃO DOS SANTOS BOTELHO 

14/01/1934 - MARIA CÂNDIDA BOTELHO DOS SANTOS

06/06/1936 - RAUL BOTELHO DOS SANTOS

29/01/1939 - MANUEL BOTELHO DOS SANTOS


28/11/1941 - MARÍLIA ROSA BOTELHO DOS SANTOS

15/01/1944 - NOÉMIA BOTELHO DOS SANTOS

 



ARTUR
JOAQUIM


                                                   
JAIME



RITA


MARIA CÂNDIDA

                                                                            

RAUL

MANUEL


MARÍLIA


NOÉMIA

A LOURDES , no casamento da filha FERNANDA, de braço dado com o noivo e o pai, Adérito Comba.
A tia Lourdes e o tio Adérito já partiram para sempre


Da esquerda para a direita: MANUEL, RITA, (Glória, sobrinha) MARIA CÂNDIDA, RAUL e NOÉMIA.
O RAUL já partiu para sempre.

Casamento de Raul  Botelho dos Santos, tendo ao lado a irmã Noémia e o irmão Manuel e seus respectivos cônjuges. 
Jaime  dos Santos Botelho e esposa
A NOSSA ÁRVORE TEM CRESCIDO E NUNCA VAI PARAR.... BOTELHOS E SANTOS SÃO IMPARÁVEIS...
E JÁ SE JUNTARAM OUTROS TÂO BONS COMO NÓS!

PARTE DA ÁRVORE IMENSA QUE DESDE FONTELO E BUJÕES SE EXPANDIU NO LINDO BRASIL! TÃO LINDO COMO NÓS!

A ÁRVORE DA ALEGRIA ! ORGULHO DE MANUEL, FRANCELINA E MUITAS OUTRAS FAMÍLIAS QUE FIZERAM CRESCER ESTA LINDA E ETERNA ÁRVORE.





MEMÓRIAS DO PASSADO
Era eu pequenino e me recordo do tio Manuel Soqueiro. Um mestre na arte de fazer socos. Mas acima de tudo era um homem educado, bom e generoso. Ele e a mulher, a tia Francelina, criaram um rancho de filhos naquela casa que tinha uma varanda para a Eira do Sr. Araújo. Por baixo, a grande oficina de calçado, onde ele e alguns irmãos e filhos trabalhavam para que muita gente tivesse os pés quentes no Inverno.


    
 Uma procissão passando na Eira por debaixo da Varanda e em frente da porta da oficina da casa da tia Francelina e tio Manuel Soqueiro, há cerca de 80 anos.


E ali, defronte do caminho de terra, pedras e fragas que vinha do Cimo do Povo até ao Alto da Serra, onde as mulheres passavam para a fonte e os homens para o trabalho ou para a tasca do tio Zé Brites ou o tio David Comba, ou para o famoso barbeiro tio António da Ana, era o único local da aldeia onde se falava de coisas sérias com a presença constante do Sr. Araújo,, do tio João Cego, do Sr. Bento, e de muitos outros que então davam um ar bem diferente à pacatez do dia a dia daquela aldeia carenciada, perdida no meio dos montes. Ali, a loja de paredes de pedra, por debaixo da varanda, foi um lugar histórico daqueles anos antes e depois da segunda grande guerra e da chegada dos tempos da emigração.
Decorridos tantos anos e ainda se contavam muitas histórias acerca do regresso de França daquele soldado português e bujoense, constando que ele teria desertado e que teria vindo a pé, desde a frente de guerra até Bujões, numa fuga cheia de perigos e de sacrifícios. Se isso fosse verdade, nada tinha de anormal porque muitos dos soldados portugueses foram abandonados à sua sorte e vários deles desertaram ou então foram feitos prisioneiros pelos alemães. Mas não foi o caso do tio Manuel Soqueiro...
De certo para não estar sempre a repetir as memórias do sofrimento que representou para ele e milhares de soldados a sua participação na guerra e, sobretudo, na célebre batalha de La Lys, onde o corpo Expedicionário Português, apanhado de surpresa na véspera de se retirar, sofreu uma derrota tremenda, registando milhares de baixas, ele não se interessava com essas histórias que o povo inventava e aumentava, preferindo que uns e outros tomassem o partido que achassem melhor. De facto, o tio Manuel Soqueiro nunca se importou porque na verdade ele foi considerado como incapacitado para servir no exército devido às doenças contraídas. Ele tinha a consciência tranquila que não era um desertor, mas sim um bravo soldado português que cumpriu o seu dever. E aquela história sem nexo até lhe dava jeito porque assim as pessoas não lhe faziam perguntas e ele mais esquecia os momentos de terror vividos. Mas no seu corpo, na sua mente, a tia Francelina sabia bem que ele nunca curara os efeitos de ter sido exposto longos meses aos bombardeamentos com gases tóxicos que lhe afetaram as vias respiratórias e pulmões, os tais que, à nascença, se exibiram bem fortes! 

E morreu cedo, com 68 anos, em 24 de Abril de 1961, sofrendo no corpo os efeitos nefastos daquele horrível conflito onde participara e ficara marcado para sempre.

Por isso e apesar de esta história já constar de um livro, entendemos que as pessoas podem acreditar naquilo que melhor lhes aprouver, mas a verdade está espelhada nos documentos que estão guardados no museu histórico do exército português e esses são a prova de que o tio Manuel Soqueiro serviu o país com mais dignidade que a maioria dos políticos da época que os abandonaram no meio daquele terrível inferno. Só por isso nos admiramos que Bujões não disponha de uma rua em memória deste valente combatente e de outros que até deram a vida ao serviço da pátria, enobrecendo a história da nossa pequena mas orgulhosa aldeia! 



O SONHO DO BRASIL
Não havia bujoense que não sonhasse com a ida para o Brasil onde era suposto encontrarem condições para uma vida melhor. E, como já dissemos, alguns membros da família Farroco, de Fontelo, também estavam embuídos desse sonho e rumaram para aquele imenso país, como foi o caso dos seguintes que solicitaram passaporte nas datas abaixo indicadas:

21/09/1888 - Manuel dos Santos Farrôco, 23 anos, com Filomena, filha de 2 anos

13/11/1895- José dos Santos Farrôco, 29 anos, com Ana Santos (esposa, 31 anos, Agostinho, filho 4 anos e António (enteado)

07/06/1901- Augusto dos Santos Farrôco, 33 anos, com Maria Santos Miguel (esposa de 33 anos) e 3 filhos: António 9 anos, Manuel 7 anos, David, 2 anos. 

11/05/1905- José dos Santos Farrôco, regressou com mulher e Rosa (filha de 16 anos)

25/03/1909 - Filomena Santos Farrôco, filha de Manuel Santos Farrôco, regressou com 22 anos.

25/03/1913 - Manuel dos Santos ou Manuel dos Santos Bié, 35 anos, com a esposa, Vitória dos Santos Farrôco, de 35 anos, e filhos Manuel, de 12 anos e Maria da Conceição de 9 anos.

29/03/1913- Francisco dos Santos Farrôco, 25 anos 

E na aldeia de Bujões, num ápice, a maioria dos filhos do tio Manuel Soqueiro e da tia Francelina foram a caminho do Brasil e ali se realizaram nas suas profissões dignas, constituindo famílias numerosas, de que já existem diversas gerações de descendentes. Uma grande e robusta família que nunca esqueceu a sua aldeia natal. E como seria bonito ver o tio Manuel Soqueiro e a tia Francelina rodeados por tantos netos, bisnetos, genros, noras, sobrinhos, sobrinhas, etc. etc. 
Em Bujões só ficou a tia Marília, hoje viúva,e ao mesmo tempo sempre risonha e sonhadora, que tem descendentes do seu Columbano, um homem bom que já partiu, assim como essa figura inesquecível do tio Joaquim Soqueiro, cujos filhos, dele e da tia Maria, ainda percorrem o seu ciclo de vida neste mundo, sabendo-se que nenhum deles se esquece de pais tão marcantes pela singeleza de vida com que marcaram a sua passagem pela aldeia que os viu nascer. 


Eu sou a  Marília Soqueira, mas não faço socos. Eu cá gosto mesmo é de me rir !!! Tenho um sorriso bonito, não tenho? 


Em todos eles, os que já partiram e os que ficaram, corria e corre uma veia transportando o ADN da bondade e humildade daquele casal singelo que deu a Bujões o prestígio de uma família, carinhosamente tratada por Soqueiros, que continuará a crescer no Brasil e noutros locais de Portugal e do Mundo com a mesma postura digna e honrada daqueles seus antepassados que nunca deverão e não serão certamente esquecidos.




A tia FRANCELINA, no Brasil, ao lado da sua filha NOÉMIA, cada uma delas a última a nascer de um numeroso grupo de 11 filhos!



E desde lá longe das lindas terras do Brasil, onde repousa para sempre a tia Francelina, que após a partida para o mundo divino do seu Manuel, em 24 de Outubro de 1953, partiu ao encontro dos seus filhos que viviam na grande metrópole paulista.
Agora, sim, ela poderá estender os seus longos braços até ao cemitério de Abaças, mesmo ali ao lado de Fontelo, e saudar os inúmeros membros da família Farrôco, raízes que seu sogro estendeu até Bujões, e onde aquele seu filho, o Manuel, se entrelaçou pelo casamento com uma das famílias mais prestigiadas da nossa aldeia - os Botelho, também prontos para um abraço.
E vejam que bastou apenas um deles casar-se com uma bujoense, para logo em seguida a árvore da família Santos, Botelho e de tantas outras, se ter expandido de uma forma fulgurante, interligando-se a diversas famílias igualmente pujantes e frondosas, com ramificações neste mundo e no outro, onde alguns justamente repousam, esperando que o ciclo da vida se vá fechando e abrindo numa constante renovação que é a essência da vida.
E é para aqueles que repousam no reino dos justos e que fazem parte do clã dos Soqueiros nascidos em Bujões, e que ficaram Santos e Botelhos, muitos deles meus conhecidos e em especial ao Artur, companheiro de serenatas de meu pai, a quem ao finalizar esta página queria fazer um pedido:
Peça ao seu pai que quando encontrar o meu, e minha mãe, ela também grande amiga da tia Francelina, que faça para ambos um par de socos bonitos, desses de pele de diabo que estão na moda, que eu pago por transferência intercelestial. Obrigado!



A saudosa tia Francelina olhando com ternura as flores que em pensamento ansiava enviar para Abaças, em homenagem merecida ao seu inesquecível MANUEL, que ali repousa eternamente.


ORGULHO EM ESTAR PRESENTES
Ao verem aqui retratadas as suas origens e os seus antepassados queridos, alguns netos e bisnetos do tio Manuel e da tia Francelina querem fazer parte dessa legião de honra em sua homenagem, e a página ficará aberta para todos aqueles que no futuro aqui quiserem deixar a sua foto, podendo até haver a possibilidade de  se inserir um video.
Hoje, vamos acrescentar algumas fotos do ramo familiar da tia Marília e do tio Columbano Abelha, com a gratificante colaboração do seu filho José António Abelha, um dos muitos netos que já fez crescer a árvore. Vejam que família bonita!  

Columbano Abelha
Marília Rosa Botelho dos Santos
Tia Marília com os filhos José António, Manuel
e Maria do Carmo.
       
Que foto tão linda dos filhos da tia Marília.
O terço era muito maior do que os pecados!
                            


O Manuel, a Maria do Carmo e o José António
José António  ao lado do sogro, o tio Zé Pinheiral.

As quatro filhas do José António e de Maria de Lurdes Poiares Apolinário SANDRA, ELOÍSE,CELINE e  MORGANE

TIAGO E LUCAS, filhos gémeos de SANDRA.



EMMA, filha de ELOÍSE





A PROVA FINAL

Depois de exaustiva pesquisa no Museu Militar de Lisboa, encontrámos finalmente a prova inequívoca de que o querido soldado bujoense Manuel Maria dos Santos, que documentos que constam deste texto já comprovavam que não desertou coisa nenhuma, vindo a pé de França, como diziam os antigos, regressou de facto no navio Gil Eannes, chegando a Lisboa num sábado, no dia 23/7/1918, desembarcando no dia 28 do mesmo mês- 5ª feira.

Esta a verdade, estes os documentos que confirmam e dão força ao que já antes era uma certeza! Manuel Maria dos Santos lutou até poder e brevemente deixaremos aqui um documento com o relato das acções militares em que a sua companhia interveio em França, até que tolhido pelos gases pimenta regressou à sua Pátria, cumprindo o seu dever de forma honrosa!
CAPA DO DOSSIER COM OS MILITARES TRANSPORTADOS
PELO NAVIO GIL EANNES


LISTA DE MILITARES REGRESSADOS DE FRANÇA, ENTRE OS QUAIS O SOLDADO nº 544 MANUEL MARIA DOS SANTOS  DA 1ª COMPANHIA DO REGIMENTO DE INFANTARIA 13

NAVIO GIL EANNES


 
UM BRASIL CHEIO DE RAÍZES
Não será fácil encontrar uma família com origens em Bujões com tantas raízes espalhadas por esse país imenso que é o Brasil, e em que o espirito humilde, honesto e trabalhador dos velhos soqueiros se reveja nessa legião de filhos, netos, bisnetos e trinetos,todos eles transportando um pouco do ADN daquele valente soldado do Regimento de Infantaria 13, sofrendo nos campos da Flandres e que se viria a unir a uma das filhas do famoso Manuel Botelho, a Francelina. Todos já lá no Alto da eternidade, não escondem o orgulho que sentem por tão grande prole, a quem incutiram os princípios de bondade, amor e simpatia com que marcaram a sua passagem por este mundo.
E vejam agora um pouco mais dessas gentes açucaradas que labutam, estudam e crescem nas terras do Brasil, uma família que não esquece as suas raízes nem o carácter dos seus antepassados, sinal marcante para vencer e caminhar rumo ao futuro!   E, acreditem, ainda faltam alguns para continuar a alimentar esta página do tio Manuel Soqueiro!

                           MANUEL BOTELHO DOS SANTOS e esposa MEIRE MACHADO DOS SANTOS
Os falecidos Sr. António Cigarro e esposa Dª Maria da Glória, no baptizado de RICARDO, filho de Manuel e Meire.
Presentes os irmãos do Ricardo,  o  ROGÉRIO e o EDUARDO
.

             
                            ROGÉRIO (filho de Manuel e Meire) E TERESA CRISTINA  (filha de Ana Claro e Joaquim Tomás) no dia de casamento.

ROGÉRIO e esposa TERESA CRISTINA,  GABRIEL ( filho de Eduardo  e Marcela, neto do tio Manuel e da tia
Francelina, ao meio) e e os sobrinhos de Teresa Cristina, RENAN e LUCAS
.

Rogério Machado dos Santos  e esposa Teresa Cristina Correia Botelho

Tia ANA CLARO, ao meio, seguida da filha TERESA CRISTINA e do marido tio JOAQUIM TOMÁS.
Da foto constam o LUCAS, sobrinho da TERESA CRISTINA e o marido desta o ROGÉRIO.
Infelizmente a tia ANA e o tio JOAQUIM, já partiram deste mundo, deixando profunda saudade.

RICARDO (filho de Manuel e Meire) e esposa MARIZA com os filhos
 LARA e ARTUR, bisnetos do tio Manuel e tia Francelina
Ricardo Machado dos Santos e Fábio Machado dos Santos, filhos de Manuel e Meire
EDUARDO, filho de Manuel e Meire com a esposa Marcela  e os filhos Gabriel e Tiago  (junto sua cunhada Liana e sua sogra dona Adelina).

NOÉMIA BOTELHO DOS SANTOS e seu marido SEBASTIÃO GODOI
A Família GODOI , de Noémia, e Sebastião
 Casamento de Cintia dos Santos Godoi (filha da  Noemia e Sebastião) com Giuliano Nunes 
e Manuel, João Tura (no colo) e Tiago Obata dos Santos, Bruno Botelho dos Santos e 
Artur dos Santos (da esq. p/ direita), bisnetos de Francelina e Manuel.

NOÉMIA no dia do casamento do filho RODRIGO 




Nesta foto, a partir da esquerda,  Bruno Botelho dos Santos, Tiago Obata dos Santos, Manuela e Larissa Shibuya Comba (netas da tia Lourdes) e Rafael Botelho dos Santos (todos bisnetos daa vó Francelina e avô Manuel

Aqui os bisnetos da avó Francelina e do avô Manuel 
(Rafael Botelho dos Santos, Gabriel Obata dos Santos e Pedro Tura).


NATAL de 2014, em casa de MARIA CÂNDIDA.  Alegria e espírito de família.


Esperando o PAI NATAL



Janeiro de 2015









13 comentários:

  1. Por acaso li ontem esta página em que falam da minha terra Fontelo. Também gostava de que houvesse alguém da nossa terra que nos lembrasse dos nossos antepassados. Fiquei a saber coisas da guerra que nem sabia e que Bujões tem tanta coisa na Internet que dá gosto ler. Vivo em França e dou os parabéns a quem estuda estas coisas tão bonitas do passado. Como vivo perto da ville de La Couture quero ir ver o cemitério dos portugueses e o monumento da guerra. Obrigado
    J.Santos - Lille

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  2. Agradeço enormemente do fundo do meu coração, por contar a história do meu avô. Assim iniciou-se a minha história também, que passarei aos meus filhos com muito orgulho. Graças a ele tive o privilégio de ser filho do melhor pai do mundo, que me ensinou a seguir o caminho do bem e principalmente ser honesto e justo. Amo todos vocês, vô, vó, pai, mãe, eposa e filhos. Sou filho com muito orgulho de Manuel e Meire, afilhado de Raul e Maria Candida, neto de Manuel, Francelina, Sérgio e Georgina, casado com Janaina e pai do Pedro e do João. Grato Fabio Machado.

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  3. Fiquei muito emocionado ao ler tão bela história sobre a vida de meu avô. Fiquei com os marejados. Sinto muitas saudades do tempo em que nos reuníamos em torno da vó Francelina e de como a família se relacionava de maneira sincera e cheia de cumplicidade uns com os outros. Ver as fotos dos meus tios e tias me trouxeram boas lembranças. Também sou filho de Manuel Botelho dos Santos e me casei com a filha de Joaquim Tomás Botelho (Joaquim Bailão como o conheciam em Bujões) e de Ana Correia Claro (de Vila Seca), a Teresa Cristina Correia Botelho, agora dos Santos também, com quem tive dois filhos, o Rafael Botelho dos Santos e o Bruno Botelho dos Santos. Sinto muito orgulho de fazer parte deste clã. Fico muito agradecido a ti, por ter eternizado e divulgado essa linda história e ao tio Sebastião Godoi (marido da tia Noemia Botelho dos Santos) por ter divulgado tão lindo trabalho!

    Abraços desde o Brasil,

    Rogério Machado dos Santos

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  4. Jose Antonio Dos Santos Abelha12 de novembro de 2014 às 04:46

    Com muito gosto de ler estas paginas em memoria do meu avo que por aqui andou aqui perto onde eu vivo agradeço a todas as pessoas que participarao meus pais sao Columbano e Marilia que estao citados como meus tios e tias um grande abraço a tudos primos,primas que estao em Portugal e no Brazil e meu irmao e irma em França. obrigados tiao e Noemia
    Jose Antonio Dos Santos Abelha
    Beauvais França
    PS para J SANTOS de LILLE fac jose abelha

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  5. Gostaria de agradecer imensamente esta historia tao rica em detalhes que me fez conhecer um pouco mais meu avo e relembrar minha avo Francelina que me criou desde pequeno . Sou Filho de Sebastiao e Noemia, irmao de Cintia e Patricia e casado com Isabella, tenho muito orgulho de fazer parte desta familia e ser parte desta historia .
    Muito obrigado
    Rodrigo dos Santos Godoi

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  6. Respondendo ao Fábio Machado, ao Rogério Machado, ao José António dos Santos Abelha e ao Rodrigo dos Santos Godoi, em primeiro lugar a minha satisfação pelos vossos comentários. No final desta semana vou colocar mais uns pequenos elementos na página, mas com a colaboração de qualquer um de vocês, ou mesmo de todos, podíamos acrescentar uns dados que iriam completar a página e torná-la mais abrangente. Ideia : colocar o nome de todos os nomes dos cônjuges, netos e bisnetos da tia Francelina e do tio Manuel. Quem me ajuda? Meu email jvpaula@netcabo.pt ou jvpaulo1@gmail.com fica a aguardar o vosso contacto. Eu sei que o amieiro é uma árvore grande, tal como a grande árvore da família que nasceu naquela casa da Eira, com entrada junto à antiga Capela de Santo Amaro, que já não existem, mas que deu aso a uma família que expandiu suas raízes por esse mundo além, desde Bujões, Alcobaça, França, Brasil e ... Jardim do Paraíso
    Obrigado e fico a aguardar José Ventura Paula

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  7. Prezado J Paula, boa noite, agora estou lendo os comentários, de todos, ficaram muito felizes com a pasta sobre a Familia Santos e Botelho, ficou muito rica em Detalhes, muitos deles desconhecido por muitos da família Parabéns!!!
    De nossa parte, vou conseguir mais detalhes de minha esposa e filhos para que você possa incluir no BLOOG e minha recomendação para todos que fazem parte da Familia Santos e Botelho que o façam também, encaminhando nome do Pai e Mae , filhos , cônjuges e filhos(netos) mandem também fotos para que sejam alimentados no BLOOG e sejam conhecidos por toda família
    Parabéns J Paula pela iniciativa e determinação na elaboração do BLOOG, vamos nos encontrar, seja no BRASIL ou em PORTUGAL.
    Abraços
    Seba Godoi e Noemia Botelho.1

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  8. Jose Antonio Dos Santos Abelha16 de dezembro de 2014 às 02:44

    Obrigado Jose pelo comentario é assim que uma familia vem mais grande so um pequeno erro na foto onde estou nao é o meu pai mas o meu
    sogro o JOSE PINHEIRAL obrigado mai uma vez
    Jose Antonio Dos Santos Abelha

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  9. Gostei imenso de ler esta pagina sobre um dos muitos soldados portugueses que enfrentaram essa horrível guerra e que é uma aldeia, bem perto da minha-Andrães. Além da vida do tio Manuel nós aprendemos coisas sobre a guerra escritas de forma simples e conhecemos a belíssima família que nasceu a partir da sorte que ele teve em não morrer como tantos morreram. Parabéns a Bujões!
    M.Rodrigues

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  10. Maravilhosa página do tio Manuel Soqueiro, que não conheci, mas que foi um dos muitos valorosos soldados que combateu aqui nas terras de França e que sofreu todo o tipo de privações porque os nossos soldados foram abandonados à sua sorte e os alemães não perdoaram, atacando na véspera de eles partirem. Cobardia!
    J.Martins

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  11. NOEMIA BOTELHO VENTURA27 de maio de 2022 às 09:53

    Tenho muito orgulho da familia

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  12. Gostaria de por foto das minhas filhas e netos

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    1. Este blogue está sempre disponível para englobar fotos ou acrescentar outros dados sobre a família do tio Manuel Soqueiro. Basta enviá-las por email para jvpaulo1@gmail.com e logo que eu possa acrescentarei ao texto deste grande bujoense que conheci pessoalmente e ainda calcei socos que ele fazia com maestria naquela loja por debaixo da sua casa virada para a Eira do Sr. Araújo. Hoje não existe essa casa, mas a memória do único bujoense que combateu na primeira grande guerra nunca será esquecida. Por favor expliquem bem quem são as pessoas das fotos que podem enviar e qual a ligação que têm com a Noémia Botelho Ventura . Um abraço José Ventura Paula

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